Diário 8: 22/05 a 27/05 - De volta às estradas - Um cinema de 1947

03/06/2017 12:46

Na segunda, dia 22, acordamos sem pressa de sair. Nessa hora bate uma certa ansiedade porque tudo está tão bom assim. Aqui no Texas nós gostamos do clima, sabemos onde as coisas estão, temos dormido desde de Rest Areas, estacionamento do Walmart e em frente à casa de amigos. Ficamos mais de um mês, quase dois aqui no Texas em função do nosso passaporte, por causa da questão do Visto Canadense. Mas agora chegou a hora de partirmos para o desconhecido novamente. Pesquisar mapas e decidir onde dormir, como nos virarmos na estrada. Hoje em dia está, vamos dizer assim, muito mais fácil de viajar por aqui. Com um carro norte americano, já acostumados com o trânsito, onde comprar suprimentos, onde lavar roupas. Arrumamos tudo nos despedimos e saímos.

Primeira parada foi em uma loja da At&t para comprarmos um novo chip de dados para a internet. Fomos na tentativa de um vendedor que falasse espanhol mas não teve jeito. Os que falavam estavam atendendo. Mas a Janeh se virou muito bem e, graças a Deus, o atendente era bem atencioso e nos atendeu muito bem. Percebemos que quando a pessoa quer se comunicar, sempre dá certo. O custo do chip de dados ficaria em $50 dólares, dentro do valor que temos para esse fim, porém o vendedor tinha um cupom de desconto e disse que não iria usar e deu para nós, assim nosso custo ficou em $ 28 dólares. Um presente!. Uhuuu… eu amo esse país e esses cupons de descontos.

Partimos para o Walmart e Sam’s Club repor a geladeira e suprimentos em geral. Decidimos seguir até a cidade de Wichita Falls. O Gps nos indicou ir por dentro de um bairro e eu sabia por onde ir, mas resolvi seguir a sugestão porque acaba sendo mais legal passar pelo bairro, onde podemos ver coisas mais interessantes do que conduzir somente pelas rodovias rápidas.

E na saída de Fort Worth,demos nossa primeira perdida nos EUA. Não por culpa de ter passado pelo bairro, mas quando caímos na highway eram tantos viadutos e pontes que mais parecia um nó de rodovias. E o gps não conseguia avisar a tempo qual pista eu deveria tomar e acabei errando a entrada. Estava no sentido sul-norte, Sem problemas, primeiro retorno e voltamos e agora no sentido oeste-leste e nosso destino era o norte. Mas a confusão de viadutos e pistas era tanta que perdemos novamente a entrada e agora estávamos indo para o leste. Novo retorno agora sentido leste-oeste, e com muita atenção e paciência saímos certo para o norte, ufa…

Seguimos tranquilos até encontramos uma rede de postos da Flying J onde paramos para nosso pernoite. Nosso carro, desde que compramos, está fazendo uns barulhos estranhos na transmissão e nós não fizemos nenhuma troca de óleo ainda. Neste posto eu avistei perto do pátio uma oficina de caminhões com dois MH estacionados. Pensei ser um bom lugar para fazer um serviço ali. Já era tarde e estava fechado quando chegamos e me programei para o dia seguinte.

 

Dia 23/5 Acordamos após uma boa noite de sono e levei nosso MH para a oficina logo cedo para poder realizar o serviço antes que lotasse. Desci e fui conversar os o pessoal. Expliquei que comprei o RV, não fiz nenhum tipo de serviço e estou indo para o Alasca, pedi a checagem de tudo. Expliquei que nosso carro é a gasolina, porque normalmente oficina de diesel não atende veículo a gasolina. Mas eles foram muito prestativos e nos atenderam prontamente pedindo para colocar o carro na rampa imediatamente. Uma hora e tudo estava pronto. Tivemos um custo de U$ 243,00 por mais 5 mil milhas. Deixamos o local é o carro deslizava sobre o asfalto. Comentei com a Jane que nada como óleo novo e pneus novos. Parece outro carro. Ontem dirigimos por cerca de 125 milhas, algo como 200 km. O objetivo é ficar entre 75 a 100 milhas dia, mas se ficarmos parados dois dias já recuperamos o ritmo. Nesse trecho, achamos uma Rest Area e paramos ali para o pernoite. Chegamos cedo e ainda deu para dar uma trabalhada na internet.

 

24/5 Essa Rest Area onde dormimos, na cidade de Donley-TX, nos chamou a atenção porque tem um Shelter - abrigo contra tornados. Estamos em um região muito aberta que é frequentemente castigada por tornados e por aqui é comum ver na estrada locais que vendem abrigos contra tornado. Acabamos fazendo um vídeo para a internet sobre o local.

Saímos no início da tarde e nessa viajem de hoje foram mais 100 milhas até a cidade de Amarillo. No percurso, passamos por diversas pequenas cidades texanas que parecem ter parado no tempo. Muitos estabelecimentos fechados e propriedades abandonadas. Uma observação interessante foi que em algumas nós víamos várias estações de abastecimento fechadas e abandonadas, e logo à frente uma grande praça com uma grande marca como o Love’s. Ficou claro que uma grande rede chegou a matou todos os outros comerciantes. Isso, com certeza, acabou enfraquecendo o comércio local. E talvez pela escassez do local, de deserto e alvo fácil de tornados. Mas, era como se estivesse andando de carro pelo Velho Oeste. Muitas cenas de cinema vem à mente quando se está viajando pelos EUA.

Encontramos um posto Flying J e paramos para abastecer, e fazer uma refeição. Bem próximo vimos no Ioverlander um posto de informação e Rest Area juntos com uma grande praça para estacionar e dormir. Optamos seguir para lá. Um local muito limpo, mais retirado da rodovia e com wifi free. Escolhemos um lugar e nos instalamos. Percebemos que com o cair da noite muitos RVs, Trailers param para dormir, mas logo que amanhece já vão embora. Ao contrário de nós que chegamos cedo, escolhemos o lugar e saímos depois que todos saíram. Sempre somos os últimos a deixar o local.

 

Dia 25/5 Acordamos e decidimos ficar esse dia aqui já que nossa média de milhas está alta e nosso custo precisa baixar. A única forma é ficar parado um dia. Tínhamos água e bateria, nosso gerador está funcionando e temos combustível. Então decidimos ficar e trabalhar na internet dentro do MH. Assim, nossa viagem vai mais longe.

Tivemos um lindo pôr do sol e quando fomos dormir, lá pelas 23 hs estávamos nós e um senhor com seu Trailer novinho, ele tinha acabado de comprar. Nos chamou a atenção que ele estava dormindo com a porta aberta sem problema algum. Durante a noite começou um ronco de motor, estilo um gerador ou caminhão câmara fria. Pensei ser um grande caminhão parado do outro lado do pátio que ficou ligado. Aquele ronco foi a noite toda. Quando amanheceu vimos que entre o nosso MH e o trailer havia um grande RV class A, um mega de um ônibus estacionou exatamente entre nós, e ficou a noite toda com o gerador e seu ar condicionado ligado. O que irrita nestas horas é que tinha umas 20 vagas ou mais e o indivíduo parou entre o nosso RV e o trailer do senhor sozinho numa única vaga que deixamos e passou a noite com o gerador ligado, sendo que estava frio. Vai entender.. Pois é, manda mais quem pode. A noite foi tranquila e fresca, tirando o episódio do vizinho grandalhão, deu até para usar aquela cobertura.

 

Dia 26/5 -O dia está lindo, um pouco de vento mais que o normal e decidimos tentar usar a internet do posto Flying J para subir nossos vídeos do YouTube, que eu editei no dia anterior e fazer uns downloads de uns trabalhos novos da Upwork. Voltamos ao posto mas a internet não era capaz de subir os vídeos, fizemos alguns downloads, o que já ajudou. Carregamos o gás propano, que estava na metade e completamos a água do tanque.

Partimos em direção a uma pequena cidade distante 70 milhas, Dumas, ainda no Texas. Em 2014 quando estávamos aqui com o nosso Valente passamos por essa cidade e lembramos que ela tem um estacionamento para RV´s com toda a infraestrutura, água, dump e energia. Você pode ficar por 24 horas. Perfeito para nós.

Chegando na cidade logo vimos o Walmart e ao lado uma Rest Area que também são opção para muitas coisas. Enquanto a Janeh foi pegar alguns itens eu fiquei sentado com o computador subindo dois vídeos para o YouTube. Ali funcionou bem, subimos os vídeos e voltamos para o MH. Acabei estacionando próximo da entrada ao lado para usar a Wi-Fi.

Hoje o dia estava muito quente, nosso marcador chegou dentro do carro a 34 graus.

Descobrimos que hoje é a estreia do filme da série Piratas do Caribe. Perguntamos no Walmart onde fica o cinema aqui. O Walmart, aqui nos EUA é uma espécie de Posto Ipiranga para nós. Arrumamos o carro e saímos em busca do cinema e logo tivemos uma grande surpresa.

Cidade do interior do Texas não tem IMAX nem cinema 4D nem som 5.1 . Mas esperávamos algum pequeno shopping com uma boa estrutura, pelo menos. O que encontramos foi uma rua com um cenário que mais parecia o filme De Volta para o Futuro I.  prédio do cinema era de 1930. depois descobrimos que ele funciona desde 1947. A sessão estava marcada para às 19:00hs. Chegamos às 18:30h com medo de não ter lugar. Na porta uma placa dizia “Fechado”, e “ Mínimo de 5 pessoas para o filme”. Quase caímos no chão de rir. Mais uns minutos e chegou 5 pessoas, nos animamos até perceber que eram os funcionários, e pediram para aguardar que logo abririam. Voltamos para o RV e ficamos no ar condicionado, porque apesar de ser quase 19 horas o sol estava alto ainda.

Ao entrarmos no cinema foi como voltar literalmente no tempo. Na bilheteira tudo manual, com um ticket de 1940. Tudo quase parecia ter parado no tempo, creio que a coisa mais nova ali era a máquina de cartão de crédito. Nós ficamos felizes quando 5 minutos antes de iniciar o filme umas 15 pessoas chegaram, e conosco  tínhamos o grande grupo de 20 para assistir a estreia do filme.

Dentro do salão, nada de moderno, até o cheiro era o da inauguração. Mas estava tudo limpo. Sentamos com pipoca nas mãos e uma bebida e começou o filme. A tela era a menor que eu já vi em um cinema em toda minha vida. Parecia mais um grande telão. O som, você podia ver as caixas com os falantes na frente da tela.

Mas tudo estava indo bem, até que nos últimos 15 minutos do filme, tudo apagou e ficou somente o som. Ficamos pasmos porque ninguém expressou nada. Todos permaneceram em completo silêncio. Algumas luzes acenderam e alguém foi resolver o problema que persistiu por mais dezenas de vezes interrompendo sequencialmente o filme nos últimos 15 minutos finais.

Ninguém em nenhum momento deu uma vaia,  se retirou, fez escândalo ou pediu o dinheiro de volta. Todos acabaram o filme se levantaram e saíram como se nada estivesse acontecendo. Ficamos surpresos, pois estamos acostumados com outro comportamento no nosso Brasil.

Saímos e fomos procurar o RV Park free, e lá estava ele, tal como o deixamos há quase três anos. Tudo perfeito e continua grátis e tem uma caixinha para uma oferta para a manutenção do Parque. Fizemos o dump (tirar a água negra e a do banho) no local apropriado. Escolhemos uma vaga e liguei a energia disponível em 50, 30 ou 20 amp. No local já havia dois grandes RVs instalado. O inconveniente deste lugar é que fica bem próximo da linha do trem e ele passa às 23h apitando tudo o que tem direito e depois as 5 h e as 6 h da manhã. Fora isso o lugar é show.

27/05 No domingo, no café da manhã, conversamos sobre o episódio do cinema. Pensamos como seria interessante registrar o local e sua história. Para fazer isso voltamos ao cimenta e demos sorte de o vigia estar saindo. Conversamos com ele se poderíamos fazer um filme dentro da recepção. Ele não entendeu bem o que queríamos, mas foi mais atencioso que esperávamos. Ele ligou para o dono do cinema o qual rapidamente veio até o local. Ele lembrou de nós e disse que sim, que abriria o cinema para que pudéssemos fazer o registro. O resultado está no vídeo um Um cinema de 1947, no nosso canal do Youtube.  

Logo após registrar o local fomos na mesma rua ao culto da PIB da cidade. Naquela manhã recebemos palavra edificante naquela pequena cidade. Era véspera de Memorial Day, e o Pastor refletiu sobre os mais de 1.200 mil americanos que morreram para ter um país livre, e sua luta para conquistar tudo o que conquistaram e a importância de Deus na história da nação. E de como, ao longo dos anos isso tem se perdido.   

Partimos em direção a cidade de Lamar ,que foi indicação do dono do cinema, após três horas dirigindo com muito vento lateral e numa reta interminável. Neste trecho deixamos o Texas e entramos em Oklahoma. A cidade de Lamar se mostrou muito simpática e com um ar já diferente do Texas. Demos uma volta e fomos procurar um Walmart onde ficaríamos para passar a noite. Ficamos perto o suficiente para usar a internet. Mais tarde manobramos para um outro local mais longe da entrada onde os outros Motor homes costumam ficar para passar a noite.